DIAS INÚTEIS . 17-08-2014

Porto, 2014. Num pequeno café de uma das gares da cidade, observo uma pomba que, apanhando uma porta aberta, se infiltrou no estabelecimento para roubar migalhas e pedaços de batatas fritas.

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Passo os olhos por um recorte de jornal que trago comigo, entre folhas de um livro, há sensivelmente uma semana. Nessa página, um artigo sobre um concurso que visa premiar estagiários e “estimular jovens profissionais”.

“Desde 2009 o número de estagiários em Portugal tem descido” um mistério que poderia figurar num conto de Conan Doyle, principalmente declarando-se que é difícil abusar do trabalho de um estagiário de Arquitectura. Quando se considera o orçamento de um milhão e uns trocos supostamente destinado à remuneração dos estagiários, é evidente que alguém acha que anda a fazer favores. Até porque se sabe que os estágios são sempre remunerados, e bem… cumprem horários fixos e são uma mais valia para a malta entusiasmada que desce as ruas rodeada de borboletas bem ao estilo de Gabriel García Márquez, motivados para derreter as retinas em prol do realismo mágico que, aparentemente, é este processo.

Há que aprender as realidades da profissão para ser oficialmente reconhecido enquanto profissional da área, e que melhor forma para tal do que passar horas e dias a fio em frente de um monitor, passando a limpo as ideias dos outros? Ou a tirar cafés? Isto sim é oficializar conhecimentos e ganhar credibilidade profissional. Ninguém teve a oportunidade de se debruçar sobre os programas 2D e 3D ao longo do percurso académico e certamente ninguém aprendeu a tirar cafés, o que legitima este revivalismo de Madison Avenue na década de 60. 

Sarcasmo à parte, é curioso pensar que, pessoas que saem da universidade em Portugal, são imediatamente reconhecidas noutros países enquanto profissionais ao passo que cá ainda vão contar 9 meses para existir. Não é menos curioso pensar na forma como os jovens arquitectos Portugueses são valorizados no estrangeiro (assim como os grandes mestres, claro). Conheço arquitectos a trabalhar em cadeias de hipermercados, há tempos soube de um que vendia garrafas de água na praça do comércio a automobilistas que paravam no semáforo porque não conseguia um posto pago, a acrescer a isto, a conhecida situação dos concursos públicos. Há anúncios que nem a profissão dignificam, admissões urgentes de estagiários que no fundo é o mesmo que dizer: precisamos de gente disposta a trabalhar gratuitamente. Depois ainda há quem se queixe que se exportem profissionais ou até quem aponte o dedo e faça algumas acusações pouco claras ou fundamentadas. Ás vezes penso que isto se pode comparar a uma relação abusiva e fria: andam a rever leis e estatutos, oferecendo precariedade e desrespeitando os trabalhadores das mais diversas áreas, metaforicamente não há grandes demonstrações de carinho ou mesmo de respeito e apreciação… e logo ali ao lado está o Canadá, a Inglaterra, a Suiça ou a França a fazer olhinhos e a sussurrar “vocês merecem melhor, venham e tragam os vossos sonhos e o vosso talento, nós tratamos de vocês..” mas o amor é cego e vai havendo esperança de que as coisas mudem. 

Claro que há excepções.

Há os que têm a “sorte” de trabalhar a subsídios, porque aos olhos de muitos trata-se de uma questão de enganar o destino e apanhar uma porta aberta. Este é o resumo das histórias de sucesso que insistem em contar-me. Uma “sorte” que calha apenas a uma dúzia de felizes e outra dúzia de pombas, mas valem sempre a pena, pelo menos os pássaros parecem achar que sim e desconfio que nem licenciatura têm.

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  • 5 days ago

DIAS INÚTEIS . 10-08-2014

Nazaré, 2014. A grande parte dos turistas não respeita os residentes.

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É a conclusão a que chego depois de observar alguns comportamentos que (pelos meus padrões) são estranhos e de ouvir gargalhadas e gritos emitidos por adultos durante a noite em plena rua. Situação recorrente e francamente despreocupada, como se as casas fossem um cenário e os residentes meros actores figurantes que não existem para lá das bancas na marginal e das cabanas de praia. Esta é uma das situações que apenas me levariam a abanar a cabeça em desaprovação – se eu andasse a contar os desrespeitos diários a que assisto e a escrever sobre cada um deles, não teria uma rubrica semanal mas sim uma série de livros que competiriam em termos quantitativos com o trabalho de Marcel Proust – contudo, um comentário específico que se fez ouvir muito bem através de uma das ruas por volta das duas e meia da manhã tenta-me a dedicar-lhe algum tempo:


A Paris nous pouvons pas faire ça.” *


É que aparentemente, os Parisienses precisam de dormir e os Nazarenos não. O mesmo se aplica a visitantes de outros países, todos necessitam de descanso, menos os Portugueses que sofrem, aos olhos de alguns estrangeiros, de uma dissonia colectiva (talvez seja essa a razão principal da nova onda de emigração, os Portugueses precisam de dormir e cá não conseguem). Lidamos aqui com pelo menos uma de duas coisas: ignorância ou pura falta de consideração. Mistifica-me este sentimento descomprometido de pessoas que estão de férias e acham, por alguma razão, que todas as outras pessoas estão de férias com elas. Pergunto-me se isto poderá dever-se ao facto de estarem a alimentar a economia do país, se pensam que por visitarem os hotéis, as pousadas, os cafés, os restaurantes e as lojas lhes dá o direito, talvez inconscientemente, a certas “regalias”.

É claro que não são todos, nunca podemos generalizar, e além disso eu sou tão turista quanto eles; há aqueles que não se comportam como histéricos participantes de um safari, há os que sentem que o são mas não se gabam disso e há outros aos quais só faltam os binóculos e o salacot. Estes últimos estão plenamente conscientes da figura que fazem e comentam uns com os outros que “em casa” não se atrevem a fazer o mesmo. Provavelmente ninguém os conhece, poucos os chamam à razão, e não haverá por isso grandes motivos para não incorrer naquilo que é, no meu entendimento, uma parvoíce digna de registo.



* “Em Paris não podemos fazer isto.”

 

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  • 1 week ago

DIAS INÚTEIS . 03-08-2014

Viana do Castelo, 2014. Bebo o primeiro café do dia fazendo-me rodear de simpáticos animais e de um amanhecer sincero.

“A Arquitectura coexiste majestosamente com o edificado popular” é a primeira coisa que pensei quando cheguei à cidade. A avenida é tão sincera quanto a manhã, é não só um dos traços principais do desenho urbano, mas também uma metáfora, um exemplo daquilo que este território é. Une a estação antiga, que “esconde” o centro comercial, estendendo-se através de esplanadas e das ruas perpendiculares de menor escala até a uma marginal que a remata com obras de nomes como Távora, Siza e Souto. Por baixo dos pés de turistas entusiasmados que passeiam entre as conversas e o cheiro dos doces, uma outra avenida – subterrânea – que esconde o estacionamento. Sabemos que ela está lá, pelos elementos  que garantem a ventilação e pelos acessos pontuais, mas não a vemos. Isto ajuda-me a compreender como uma cidade com franchising de fast food pode integrar o movimento cittáslow.

Na marginal, a terra une-se com a água em degraus, é como chegar a um auditório que se vira para o rio, uma fronteira de permanência que liga também ela duas realidades: de um lado, para lá da ponte Eiffel e da pousada assinada por Carrilho da Graça, os montes que espreitam sobre a cidade, de outro lado o mar e as ferramentas com as quais o Ser Humano com ele interage. Por todo o lado os ícones da tradição recordam-nos onde estamos, aqueles que não ofendem ninguém, uma imagem de marca surpreendentemente sóbria que parece infiltrar-se nos pormenores de todas as coisas deste pequeno palco de experiências. Os testemunhos de outros séculos rematando praças, mais à frente um canto de pós-moderno descarado e sem referências, depois, uma rua acompanhada por betão aparente, palas que assinalam guarda-ventos… as coisas existem sem que finjam ser, não andam com rodeios. Ou se gosta ou não, mas não se encolhe os ombros e desta forma incomodam menos.

Contrastes de uma cidade de escolhas e de descobertas, bem à escala Portuguesa, requintada mas humilde nas virtudes e defeitos, que é acima de tudo: mais Balanced que Slow.

 

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  • #Ivan Clife #Dias Inúteis
  • 2 weeks ago

WHITE HAUS - “Far From Everything”

Rádio Plasmodium, sempre contigo!

+ info (Facebook): https://www.facebook.com/pages/WHITE-HAUS/145757488922890

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  • #White Haus #Rádio Plasmodium #Music #Música
  • 3 weeks ago

DIAS INÚTEIS. 27-07-2014

Mirandela, 2014. Chegam notícias de uma área que muitos consideram sagrada e que é “honrada” com conscrição para ambos os géneros, com confrontos e com massacres diários a inocentes.

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Custa-me a imaginar algo menos sagrado, principalmente numa época em que a objecção de consciência já não se considera traição, da mesma forma que o lugar das mulheres já não é na cozinha ou o Ateísmo já não é um acto censurável de heresia. Gradualmente a realidade vai mudando, levantam-se mais questões; muitas das quais fazem, como seria expectável, comichão a alguns, mas nem o mais acérrimo conservador conseguirá proteger realmente os “valores antigos” que tenham por base o preconceito e a discriminação. Poderá o amor a um País e a um símbolo (por mais dedicado, fundamentado e digno que seja) ser maior do que aquele que se tem ao Mundo e aos seus habitantes? Sistemas políticos, religiosos e económicos à parte, e correndo o risco de soar como um hippie da era digital, nunca, apesar da dormência de muitos, esteve uma geração tão tolerante, tão a par e tão participativa relativamente ás questões globais. Apesar das diferenças culturais, é mais o que nos aproxima do que nos afasta e, acima de tudo, somos dotados do conceito de Altruísmo, que em termos evolutivos é, para todos os efeitos, um enigma. Falo mais uma vez de respeito, de coexistência e de uma tendência natural para a empatia. Se me debruço sobre isto numa altura em que o mundo é, mais uma vez assolado por guerra, é para deixar uma mensagem de esperança, porque cada geração tem o poder de mudar a história, de questionar, de agir, de educar e de escolher: viver de glórias e conflitos datados, perpetuando também a ignorância do passado, ou procurando atingir novos objectivos, questionar os valores ultrapassados e não fundamentados, na missão por uma nova glória - não apenas a de um país, a de uma crença ou de um povo, mas a da nossa espécie.

Não há palavras que descrevam as imagens dantescas que recebemos, os ataques aéreos, as cidades que, tal Varsóvia de há 7 décadas, se resumem a escombros… pais que seguram em horror os cadáveres das suas crianças, seres inocentes que por obra do acaso nasceram em território tomado pelos conflitos resultantes da persistência de uma colossal crueldade, estupidez e desrespeito. A miséria sobrepõe-se, instala-se um ciclo de perversidade e violência, e eis os povos massacrados que massacram e a incapacidade de coabitação pacífica.

Mas até quando podem estas situações durar? Quantas mais vidas se perderão até compreendermos que o mundo é grande o suficiente para que todos possamos viver sem nos debatermos por território? Que o capital gasto em destruição pode ser investido em pesquisa científica e ajuda humanitária, em abrigos, equipamentos de ensino, de saúde, de preservação ambiental e de segurança?

Para muitos uma utopia, algo impossibilitado pela nossa natureza e pelos nossos impulsos, mas há no Ser Humano algo superior. A empatia, rever-se nos sentimentos dos outros, a capacidade de trabalhar em conjunto para um objectivo que beneficie as várias partes; os Países são isso mesmo, os grupos militares e políticos regem-se (de uma forma ou de outra) por este princípio. Resta perceber que o mais benéfico seria alargar o grupo a uma escala maior: a da nossa espécie. Talvez um dia, caso a humanidade não se destrua a sí própria, tudo isto possa ser “apenas” um terrível capítulo na nossa existência, relembrado enquanto parte de uma idade das trevas em que o ser humano estava dividido entre ideais, fanatismos e rancores. Uma época escrita a sangue, a juntar a outras que nunca se deverão repetir, em que o nada que sabíamos não impedia as mais horrendas convicções.

 

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  • 3 weeks ago

DIAS INÚTEIS. 20-07-2014

Porto, 2014. De uma esplanada paralela a uma das principais artérias da cidade, observo o trânsito enquanto (re)leio “La chute”.

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Paro diante de uma passagem a propósito da escravatura e da razão. Se pudesse haver discussão, ela nunca mais se acabava, porque “a uma razão pode opor-se outra”. A critica vinda de um personagem que “sabe viver” naturalmente, de acordo com o mundo e os seus habitantes, em perfeita sintonia com a perversidade dos bons costumes da sociedade foi, é, e temo que continuará a ser pertinente e certeira. Antigamente cometiam-se os crimes e faziam-se tabuletas em sua honra. – “O inferno deve ser assim: ruas com tabuletas e nenhuma possibilidade de explicação.”

Claro que as tabuletas continuam presentes mas de outra forma, como por exemplo nas capas de jornais com fotografias de cadáveres retorcidos e quebrados pela pilha de metal resultante da queda de um avião, a falha perante as famílias de vítimas do ódio e da falta de sensibilidade de pessoas ás quais interessa mais vender exemplares do que respeitar a dignidade humana e a susceptibilidade de crianças. E mais uma vez me deparo com uma realidade francamente triste: isto acontece porque efectivamente resulta. Não é à toa que falo aqui de um sucesso de bancas, o trabalho de pseudo-jornalistas com pouca aptidão para a gramática que resulta numa série de páginas mediocremente redigidas e cujo “ponto forte” é o de estarem manchadas com sangue. Contudo, isto não impede que este matutino da violência e da miséria, com meia dúzia de “novos amores” de celebridades e alguma pornografia pelo meio seja muito bem recebido pela grande parte do público. – que diz isto da maioria das pessoas?

É aqui que entra a questão das discussões e da importância de ter uma opinião, de a expressar e de a sustentar.  É também necessário que a indignação não seja passageira, de outra forma é difícil que esta tenha consequência e mais difícil ainda é conseguir ser-se levado a sério. É necessário que se debata, que se participe e que se critique. A apatia e a falta de opinião/interesse são, geralmente, não só traços mais primitivos, mas também um problema que leva gradualmente, como sabemos, a desastrosas mudanças sociais. Relativamente ao sucesso deste diário da falta de profissionalismo, bom senso e ética: trata-se verdadeiramente do reflexo da maioria e de um monumento à desumanização, se calhar é melhor começar a tratar disto, nem que seja pouco a pouco e conversa a conversa, talvez com sensibilização, talvez com um boicote; mais não digo que é para não começar a citar Rousseau.

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  • 1 month ago

DIAS INÚTEIS. 13-07-2014

Mirandela, 2014. A “desilusão” do mundial começa, como é natural, a ser substituída por outras questões importantes como a procissão da rainha santa Isabel ou a largada de touros de Pamplona.

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Aqui está um exemplo de uma tradição que me deixa curioso por conseguir, no meu entendimento, aliar perfeitamente o masoquismo do festival Japonês Suwa Onbashira com o sadismo do festival Indiano Gotmar Mela. Para aqueles que não estão familiarizados com este tipo de actividades colectivas: a primeira consiste em deslizar por uma colina sentado num tronco gigante e a segunda consiste em arremessar pedras às cabeças uns dos outros até os participantes estarem demasiado cansados ou inconscientes para continuar o evento. Em Pamplona a actividade de eleição consiste em provocar e fugir de touros que são largados pelas ruas, em cujo objectivo é chegar ao fim com o menor número possível de ossos partidos, traumatismos cranianos e/ou órgãos furados. Em suma, uma exemplar demonstração de inteligência e bravura apenas superada pela posterior tortura e morte dos animais que segundo os “entusiastas” e os “especialistas” são criados para isso mesmo. Relativamente a esta questão, a minha opinião baseia-se tanto no trabalho de Charles Darwin como naquilo que o senso comum dita e vejo-me mais uma vez obrigado a concordar com os comentários de George Carlin a propósito da antropogénese.

Isto não me parece completamente pensado, mas também pode ser a idade a falar mais alto.

Segundo o que as gerações anteriores me dizem, entre os 20 e os 30 temos tendência a querer mudar o mundo e a achar que sabemos muito da vida e do funcionamento de todas as coisas, é a transição entre a rave party de hormonas da adolescência e a entrada na vida adulta e na responsabilidade crescente. É a segunda idade dos porquês, em que sentimos que temos o dever de contribuir e por vezes de tal forma o queremos que só estorvamos. Faz sentido… mas continuo desconfiado de que as pessoas simplesmente se conformam e isso não me tira a vontade de juntar o mundo todo numa espécie de conferência geral e sugerir que se deixem de tretas e que se foquem naquilo que (para mim) é mais importante; como o cessar dos conflitos na Faixa de Gaza, a exploração de trabalhadores, a escravatura e a miséria dos países de terceiro mundo, as torturas e as violações dos Direitos Humanos, as desigualdades e os preconceitos… eventualmente explicar também as razões pelas quais maltratar animais e correr à frente de touros enraivecidos não é grande ideia e que talvez fosse melhor preservar a integridade física e começar a tratar melhor da nossa envolvente. Colocar também uma série de questões, avisando que burilar reformulações do clássico argumento “porque é tradição” não é uma das respostas possíveis e em nada difere de um “porque sim”.

Isto tudo porque geralmente as pessoas não cuidam tanto quanto deviam umas das outras, de si próprias e do espaço onde, em boa verdade, existem; e é claro que acabo por pensar, por coincidência ao som de “Bad Wisdom” de Suzanne Vega, numa recente proposta de Lei que é no fundo um pouco como andar a fugir de touros que investem sobre nós com a imparcialidade que lhes é própria: sabemos que é perigoso, desnecessário e inconsciente, mas isso não abala a obstinação dos foliões que, sem argumentos que a sustentem, se prestam a defendê-la ao mesmo tempo que por ela são abalroados pelas ruas. 

Acompanha os Dias Inúteis no facebook em: http://www.facebook.com/DiasInuteis

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  • 1 month ago

DIAS INÚTEIS. 06-07-2014

Mirandela, 2014. Na televisão, um comentador desportivo faz questão de mencionar, relativamente ao mundial de futebol, que para passarem à próxima fase “os jogadores Sul-Coreanos teriam de fazer contas de deixar os olhos em bico”.

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Mistifica-me que se permita este tipo de gracejos raciais de mau gosto na televisão Nacional Portuguesa. Não menos mistificado fico que não exista consciência (ou que seja ignorada) de que este meio muitas vezes “oficializa” a utilização liberal de ofensas. Este é o testemunho de uma mentalidade que por sua vez influencia outras pessoas, tal bola de neve de impertinência que terá, obviamente, as suas consequências.

Estes são os mesmos profissionais que documentam de forma quase glamourosa os casos de sucesso criminosos em que os seus autores se tornam autênticas celebridades, a delinquência juvenil impune que se espalha como uma praga de desrespeito à propriedade e à integridade de pessoas que trabalham árdua e honestamente; retrato de um sistema de justiça leve, com penas desproporcionais aos crimes, quando as há. Parecemos assolados por um problema que deixaria Montesquieu às voltas na cadeira. Se nos debruçarmos sobre esta questão, deixamos facilmente de nos surpreender com o elevado número de fogos postos, de negligência, de assaltos, de corrupção, de violência gratuita e de homicídios que integram as estatísticas anuais – a verdadeira surpresa é que estes números não cresçam ainda mais. Isto comporta um risco de crescente desumanização e de insensibilização face a questões fundamentais que dizem respeito a todos. Ao mesmo tempo, há sempre quem retire proveito destas situações, aquilo a que alguns autores se referem enquanto “o salário do medo”.

É evidente que nem tudo o que passa pelo pequeno ecrã é de qualidade e conteúdo questionável, mas é também evidente que a alternativa é posta de parte pela grande maioria, como o caso do canal Nacional que esteve para fechar e que continua com o menor número de audiências comparativamente a aqueles que nos oferecem demonstrações aberrantes de ignorância glorificada. Um instrumento que por entre conversas politicas a que a grande parte da população já não dá importância, restam-nos: os dramas, os programas de pessoas famosas (cuja razão de o serem, ninguém conhece muito bem) e os concursos medíocres que conformam, que contribuem para a apatia da população e que provocam um encolher de ombros face ao que está mal, banalizando-o e baixando-lhe o volume perante este surto epidémico de insipiência.

Antes se cultivasse a verdadeira procura da serenidade e já agora: do respeito pelos outros, que vai muito além do “você” e do “senhor”, mas é claro que grande parte dos documentários, das entrevistas e dos filmes interessantes passam a partir das duas da manhã, porque em horário nobre certamente não haveria audiência que resistisse; sendo que é necessário sofrer de insónias para conseguir tirar proveito deles, algo que, visto o estado de coisas, acontecerá eventualmente de forma muito natural: o sistema funciona.

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  • 1 month ago

DIAS INÚTEIS. 29-06-2014

Mirandela, 2014. Leio a recente notícia de uma instalação artística que há um ano culminou num processo judicial e que poderá resultar em prisão para o seu autor.

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Ao que parece, as autoridades “deslocaram-se ao local e levaram a obra”, certamente dentro de um invólucro de plástico bem à moda desta epidemia de séries policiais. Bem mais grave do que esta invasão de séries medíocres é a epidemia de hipocrisia e de parcialidade que tem varrido o nosso país que está, de facto, com a corda na garganta por razões que não terminam nas questões económicas.

Independentemente da inclinação política ou do grau de seriedade com o qual se encara a legitimidade de tecidos fabricados na República Popular da China enquanto ícones da nossa nação, é importante sublinhar que isto aconteceu no mesmo país em que, no aniversário da implantação da República Portuguesa, certos dirigentes hastearam a bandeira nacional ao contrário, numa altura que coincidiu com o debate do cancelamento do respectivo feriado. Tudo isto de sorriso na boca e sem qualquer tipo de esclarecimento ou pedido de desculpas aos Portugueses depois do ocorrido e muito menos qualquer tipo de censura oficial, porque aparentemente estas questões são mais subjectivas que a Arte. Como é já costume, e perante o silêncio dos nossos dirigentes, o assunto caiu no domínio das anedotas populares: “o País está ocupado pelo inimigo” ouvia-se entre todo um leque de graçolas. É a tristeza do que se chama “rir para não chorar”.

Pergunto-me porquê.

Pergunto-me também onde reside a diferença, para lá do número do Artigo do Decreto-Lei nº 150/87, entre esta instalação artística, em que o conceito parte de uma preocupação de alguém que se debruça metaforicamente sobre a situação do seu país, dos milhares de bandeiras que são deixadas à chuva durante os europeus e os mundiais de futebol, rasgadas pelo vento e dessaturadas pelo sol, apodrecendo lentamente sobre os vidros das marquises ilegais e as guardas de ferro, completamente esquecidas e entregues a si próprias e às frágeis molas da roupa que as seguram. Face a isto relembro o Artigo 7º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e concluo que a Arte é ainda uma incógnita, incompreendida e vista por certas damas ofendidas como um acto de agressão e desrespeito, enquanto um igual desrespeito passa muitas vezes ao lado e às centenas. Talvez ainda não estejamos totalmente preparados para apreciar mais do que os bibelôs de loiça, os naperons e os galos pintados à mão. Mas no fundo, que razões temos para ficar surpresos com situações deste género, quando é sabido que em muitos dos nossos museus é ainda proibido expor obras de Arte que contenham nudez? Tabus e moralismos questionáveis que insistem em manter um pouco da mentalidade e da prática de censura do séc. XV aliada ao sempre elegante traço do lápis azul; isto de viver no passado tem muito que se lhe diga.



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  • 1 month ago
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DIAS INÚTEIS. 22-06-2014

Porto, 2014. Enquanto me desloco com dezenas de colegas para a já habitual sessão de skate do “go skateboarding day” penso na importância deste desporto na minha visão do espaço público.

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A cidade muda com o nosso olhar, e ter pegado num skate pela primeira vez foi um gesto inocente que gradualmente me ofereceu uma nova forma de olhar para as coisas. Enquanto praticantes deste desporto, pensamos a cidade não enquanto um espaço distante e impessoal, mas enquanto um conjunto de elementos com os quais podemos interagir e aos quais podemos atribuir novas funções. Os ângulos, as distâncias e as texturas ganham mais importância. Estudamos os detalhes, a inclinação, as proporções, os planos e os volumes, a forma como os vários elementos podem ser utilizados em conjunto para dar uma manobra, o espaço que existe para apanhar balanço e para aterrar, a afluência de pessoas e a quantidade de trânsito. Muitas das vezes estudamos ao pormenor o que idealizamos fazer, as melhores horas para o efeito, de onde pode ser registado em vídeo e fotografia.

Com esta nova perspectiva, os bancos deixam de ser bancos e ganham uma nova função, tal como as rampas de acesso, os corrimãos, as escadas, as paredes, os canteiros, os volumes soltos. Mais do que isso, faz-nos explorar as cidades, procurar potenciais obstáculos e por vezes, na falta deles, dá-se de certa forma a apropriação de áreas devolutas, limpando-as, construindo peças - muitas delas de grande qualidade - é um pretexto para conhecer a nossa envolvente e testar o seu potencial.

Esta é para a grande parte dos praticantes uma das principais motivações, é um acto constructivo (ao contrário do que algumas pessoas pensam) longe da ideia redutora de que andar de skate é brincar ou vandalizar e uma actividade muito distante do ténis, do futebol ou do atletismo que deve ser marginalizada por não ser compreendida. Ela é, tal como a Arquitectura, um acto de amor, e é com amor que se descobrem os melhores cantinhos da cidade.



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  • 2 months ago
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